Meu carro cinza se emparelha com um carro vermelho no farol. Os vidros abertos do carro vizinho socializam o que ele ouve em seu rádio. Imediatamente lembro-me do conto “A Igreja do Diabo”, de Machado de Assis, sobre o qual falamos ontem.
A moça, gritando notas agudas, passeando sinuosamente por melismas intermináveis, proclamando palavras-de-ordem acerca de uma tal “obrigação” que todos teríamos de “aderir” ao “Senhor”, durante aqueles 30 segundos de convivência forçada, deixou-me zonzo.
Não me contive. Abri a janela do meu carro e perguntei ao rapaz que, não apenas ouvia, mas também balançava a cabeça ao som do compasso da “música”.
– Moço, que “música” é essa?
– É Gospel!
– O quê?
– É Gospel!
– Ah!, Valeu!, Obrigado pela informação!
Gospel. “Gospel”, a contrição da expressão verbal norte-americana “God Spell”: “Deus fala”.
Deus fala... Daquele jeito? Gritando ensandecido, multiplicando melismas insuportáveis que deterioram a melodia, proclamando palavras-de-ordem contra mim??? Deus me livre!
Pensei que perto de Deus só houvesse o Silêncio...
sexta-feira, 27 de novembro de 2009
quinta-feira, 26 de novembro de 2009
Literatura
“Deus recolhia um ancião, quando o Diabo chegou ao céu. Os serafins que engrinaldavam o recém-chegado detiveram-se logo, e o Diabo deixou-se estar à entrada com os olhos no Senhor.
– Que me queres tu?, perguntou este.
– Não venho pelo vosso servo Fausto, respondeu o Diabo rindo, mas por todos os Faustos do século e dos séculos.
– Explica-te.
– Senhor, a explicação é fácil; mas permiti que vos diga: recolhei primeiro esse bom velho; dai-lhe o melhor lugar, mandai que as mais afinadas cítaras e alaúdes o recebam com os mais divinos coros...
– Sabes o que ele fez?, perguntou o Senhor, com os olhos cheios de doçura.
– Não, mas provavelmente é dos últimos que virão ter convosco. Não tarda muito que o céu fique semelhante a uma casa vazia, por causa do preço, que é alto. Vou edificar uma hospedaria barata; em duas palavras, vou fundar uma igreja.”
Machado de Assis, há mais de 100 anos... Preditório, como sempre.
– Que me queres tu?, perguntou este.
– Não venho pelo vosso servo Fausto, respondeu o Diabo rindo, mas por todos os Faustos do século e dos séculos.
– Explica-te.
– Senhor, a explicação é fácil; mas permiti que vos diga: recolhei primeiro esse bom velho; dai-lhe o melhor lugar, mandai que as mais afinadas cítaras e alaúdes o recebam com os mais divinos coros...
– Sabes o que ele fez?, perguntou o Senhor, com os olhos cheios de doçura.
– Não, mas provavelmente é dos últimos que virão ter convosco. Não tarda muito que o céu fique semelhante a uma casa vazia, por causa do preço, que é alto. Vou edificar uma hospedaria barata; em duas palavras, vou fundar uma igreja.”
Machado de Assis, há mais de 100 anos... Preditório, como sempre.
quarta-feira, 25 de novembro de 2009
Cinema
O título do filme, em sua língua original, traz à luz – se é que é possível – mais realeza do que ele já carrega em si. Finding Nemo.
A história do pai que vai à procura de seu filho, do único filho que restou de uma ninhada numerosa devorada por um peixe maior e mais ameaçador do que ele, é tão poética, tão grandiosa, tão bem escrita que chega às raias da Perfeição. Pouco resta a dizer.
Um detalhe:
Ao ataque do peixe-devorador, o pai, o “homem da casa” salva-se. A mãe, ao tentar salvar suas crias, é devorada.
O comportamento feminino, a alma feminina, o Ser feminino é exposto numa única cena. A mãe defende aquele ser que é gerado dentro dela com unhas e dentes (e nadadeiras!).
O comportamento masculino, a alma masculina, o Ser masculino é também exposto na mesma cena. O homem defende-se a si. Ele sabe que a continuidade da espécie depende de sua sobrevivência.
Finalmente, o toque magistral do filme.
O pai cuida sozinho do único filho que sobreviveu ao ataque do peixe-maior. Cuida como pai e como mãe. Teme, zela, cerceia. O filho – o comportamento filial, a alma filial, o Ser filial –, naturalmente, se rebela. É pescado.
O pai – em toda a sua mais plena porção Feminina – , qual a mãe o faria, se arrisca. Enfrentar todo o oceano em busca de seu filho. Vence.
Encontra-o.
Semana que vem: Crepúsculo dos Deuses, de Billy Wilder.
A história do pai que vai à procura de seu filho, do único filho que restou de uma ninhada numerosa devorada por um peixe maior e mais ameaçador do que ele, é tão poética, tão grandiosa, tão bem escrita que chega às raias da Perfeição. Pouco resta a dizer.
Um detalhe:
Ao ataque do peixe-devorador, o pai, o “homem da casa” salva-se. A mãe, ao tentar salvar suas crias, é devorada.
O comportamento feminino, a alma feminina, o Ser feminino é exposto numa única cena. A mãe defende aquele ser que é gerado dentro dela com unhas e dentes (e nadadeiras!).
O comportamento masculino, a alma masculina, o Ser masculino é também exposto na mesma cena. O homem defende-se a si. Ele sabe que a continuidade da espécie depende de sua sobrevivência.
Finalmente, o toque magistral do filme.
O pai cuida sozinho do único filho que sobreviveu ao ataque do peixe-maior. Cuida como pai e como mãe. Teme, zela, cerceia. O filho – o comportamento filial, a alma filial, o Ser filial –, naturalmente, se rebela. É pescado.
O pai – em toda a sua mais plena porção Feminina – , qual a mãe o faria, se arrisca. Enfrentar todo o oceano em busca de seu filho. Vence.
Encontra-o.
Semana que vem: Crepúsculo dos Deuses, de Billy Wilder.
terça-feira, 24 de novembro de 2009
Teatro
A apresentação da peça aconteceria fora da cidade de São Paulo. A divulgação da prefeitura local não fora lá grande coisa. Uma chamadinha num dos Jornais da cidade e... mais nada. Nem um cartaz, nem uma propaganda no Rádio, nem uma inserção na TV Local.
O teatro, pequeno. O público, menor ainda: 6 espectadores.
No minúsculo palco, os 6 atores (tantos atores em cena quanto espectadores na platéia) espremem-se ao longo dos 71 minutos de peça. Suam, interpretam, trabalham. Doam-se, entregam-se, revelam-se. Brilham.
Finda a peça.
Os aplausos pouco sonoros mas muito efusivos alimentam a alma dos atores. Gratos, agradecem à platéia.
O diretor da peça toma a palavra e agradece “àqueles que vieram nos ver”.
Surpreso – e, logo, grato – ouve a exclamação, carregada do sotaque da região, de um homem de cabelos brancos:
– Bobos foram eles, que não vieram!
Não pode haver prêmio maior para um artista.
O teatro, pequeno. O público, menor ainda: 6 espectadores.
No minúsculo palco, os 6 atores (tantos atores em cena quanto espectadores na platéia) espremem-se ao longo dos 71 minutos de peça. Suam, interpretam, trabalham. Doam-se, entregam-se, revelam-se. Brilham.
Finda a peça.
Os aplausos pouco sonoros mas muito efusivos alimentam a alma dos atores. Gratos, agradecem à platéia.
O diretor da peça toma a palavra e agradece “àqueles que vieram nos ver”.
Surpreso – e, logo, grato – ouve a exclamação, carregada do sotaque da região, de um homem de cabelos brancos:
– Bobos foram eles, que não vieram!
Não pode haver prêmio maior para um artista.
segunda-feira, 23 de novembro de 2009
Futebol
Quando aquele time forrado de negros pobres, inexperientes e “emocionalmente instáveis” (segundo o laudo do médico da delegação), aos 3 minutos de partida, levou o primeiro gol do jogo final da Copa do Mundo de 1958, não houve quem pensasse ser possível uma reação. Aquela gente semi-profissional, distante de casa, num lugar frio-até-mesmo-no-verão, não teria estolfo psicológico para reverter o quadro estabelecido. Não teria.
Eis, então, que Didi, o Príncipe Etíope, vai até o fundo da rede do gol brasileiro, pega a bola, toma-a em seu braço e vem caminhando lentamente, passo a passo, desde o gol até o meio do campo. Caminha e fala com seus companheiros. Fala com todos eles, um a um. Sem pressa. Com mestria.
Quanto tempo durou aquela caminhada? Que palavras o mestre disse? Somente a bola, sob seu braço, poderia dizer. Somente ela viveu aquele momento mítico. Somente ela viu o tempo parar para ouvir as palavras de Didi.
Toda aquela serenidade provinda da inesgotável sabedoria daquele mestre negro distante de sua casa fez com que o gol sofrido não fizesse sofrer nem um dos jogadores daquele time.
Aos 9 minutos, Vavá empatou o jogo. Aos 32, virou o jogo. Daí em diante, só restava esperar pela goleada. Os 5 x 2 estampados no placar do estádio ao final do jogo revelavam mais do que a seleção campeã do mundo. Traduziam, em números, a ação de um verdadeiro Maestro: ter o domínio pleno, total e absoluto do Tempo.
Eis, então, que Didi, o Príncipe Etíope, vai até o fundo da rede do gol brasileiro, pega a bola, toma-a em seu braço e vem caminhando lentamente, passo a passo, desde o gol até o meio do campo. Caminha e fala com seus companheiros. Fala com todos eles, um a um. Sem pressa. Com mestria.
Quanto tempo durou aquela caminhada? Que palavras o mestre disse? Somente a bola, sob seu braço, poderia dizer. Somente ela viveu aquele momento mítico. Somente ela viu o tempo parar para ouvir as palavras de Didi.
Toda aquela serenidade provinda da inesgotável sabedoria daquele mestre negro distante de sua casa fez com que o gol sofrido não fizesse sofrer nem um dos jogadores daquele time.
Aos 9 minutos, Vavá empatou o jogo. Aos 32, virou o jogo. Daí em diante, só restava esperar pela goleada. Os 5 x 2 estampados no placar do estádio ao final do jogo revelavam mais do que a seleção campeã do mundo. Traduziam, em números, a ação de um verdadeiro Maestro: ter o domínio pleno, total e absoluto do Tempo.
sexta-feira, 20 de novembro de 2009
Música
Eu tinha 9 anos de idade. Em minha terra, lá no interior do Brasil, houve um show de música. Um show com a maior cantora do Brasil à época: Elis Regina. Fui ao show com meu pai.
Chegamos, o palco estava arrumado. Um piano à minha esquerda, uma guitarra à esquerda do piano, uma bateria no centro do palco, um baixo à esquerda da bateria. Tudo pronto.
Do lado direito do piano, no canto do palco, uma cadeira. Vazia. Sem nada em cima. Uma cadeira posta ali, jogada. Perguntei a meu pai o que fazia ali uma cadeira. Ficamos os dois na dúvida.
Começa o show.
Elis Regina canta como nunca. Como ninguém. A afinação precisa é embalada pela incrível capacidade de improvisação, pelo “balanço” intraduzível, pela emissão de cada palavra da música pronunciada com a mais pura Verdade possível. Cada palavra que saía da boca daquela cantora de 1,53 metros de altura soava como palavras ditas em voz alta por um gigante.
Elis Regina cantou, pulou, dançou.
A certa altura, dirigiu-se para o lado direito do palco e sentou-se na cadeira ali abandonada. Sentou-se ali e cantou Corcovado, de Tom Jobim.
Após as primeiras notas cantadas ali, daquela cadeira, finalmente eu descobri o porquê da existência das cadeiras na Terra. Elas tinham nascido para aquele momento. O momento em que, sobre elas, Elis Regina cantaria a Vida.
Caro Ilan
Seguem os 3 Projetos sobre os quais falamos. Perdoe a demora. A escolha correta da peça (Projeto 1), a escolha correta do grupo (Projeto 2) e a escolha correta dos grupos (Projeto 3) tardaram um bocado este envio. De todo modo, “antes tarde do que mais tarde”, não é? Aí vão:
Projeto 1 – Da Desconstrução de uma partitura
No intento de mostrar ampla e detalhadamente a importância vital do conceito teórico – e, mais, do aprofundamento no domínio do conceito teórico – no processo de aprendizado; no processo pedagógico; e, sobretudo, no processo de trabalho; venho propor o que chamo de “desconstrução de uma partitura”.
Exposto à execução de uma música, imediatamente o ouvinte se remete a algo etéreo, onírico, provindo de uma inspiração repentina que tem lugar no éter poético por onde os grandes gênios transitam com a facilidade de quem entra e sai por uma porta constantemente aberta. Ledo engano.
A música só leva o ouvinte a tais plagas após um processo metódico e escorreito de construção. Escrevem-se notas sobre uma pauta em branco. Tais notas revelam um intrincado processo composicional que parte da Forma e chega ao ouvido como Conteúdo.
Conhecer tal processo composicional leva o ouvinte a entender o compositor como aquele-que-trabalha, não mais como aquele-que-transita-pelo-Éter.
Munido de tal conceito, o ouvinte poderá situar-se na posição analítica da composição. Poderá compreender alguns passos que o compositor trilhou (e deixou grafados) na construção de sua partitura.
No entanto, para que o ouvinte compreenda o processo de construção de uma partitura, é necessário que um especialista des-construa a partitura à vista do ouvinte. É necessário que o especialista des-monte passo-a-passo a partitura para que o ouvinte perceba como o compositor montou a estrutura que o encanta, enternece, comove.
Para tanto, traremos à tona uma peça fartamente executada, amplamente conhecida: a 5a. Sinfonia, de L. V. Beethoven. Mais precisamente, o Primeiro Movimento da 5a. Sinfonia, de L. V. Beethoven.
Partindo do conceito da Forma, arraigado ao período neo-clássico, antecedente a Beethoven, estabelecido na segunda metade do século XVIII, e levado à categoria de “Estrutura Perfeita” por W. A. Mozart, estabeleceremos um Conceito-Primal do trabalho: compreender cada passo da construção de uma obra musical pela premissa teórica da qual se valeu o seu compositor.
Passaremos a destrinchar cada trecho do primeiro movimento da Sinfonia (após estabelecer o Conceito de Sinfonia) mediante as divisões impostas pela Forma Sonata.
Em seguida, esmiuçaremos cada subdivisão de cada um dos trechos, até chegarmos à mínima célula melódica (as famosas 4 notas do “tchan-tchan-tchan-tchan”), a pedra-fundamental que gerou toda a construção arquitetada pelo genial compositor austríaco.
Compreenderemos, finalmente, o cerne do processo composicional de Beethoven. Perceberemos, a partir da dês-construção, cada passo que o compositor seguiu para realizar a construção de sua obra. Estabeleceremos a vital necessidade de se compreender – e, sobretudo, dominar – o conceito Teórico para atingirmos a eficácia Prática.
Projeto 2 – Do Quarteto de Jazz e o Conceito de Improvisação
Há pouco tempo estabelecia-se incondicionalmente a relação de semelhança da estrutura interna de uma Empresa com a estrutura íntima de uma orquestra: os setores divididos por suas características, suas funções, sua hierarquia, todos regidos por um maestro e obedecendo aos signos de uma partitura.
Desde algum tempo, tal conceito sofreu uma transformação e a relação de semelhança passou a ser estabelecida com um Grupo de Jazz: os indivíduos, setorizados também, hierarquizados também, porém com a capacidade - e a liberdade – de improvisação em determinados momentos.
Traduzir tal conceito em palavras não requer mais do que 2 parágrafos. Contudo, não passa de um conceito traduzido, não-vivenciado.
Visualizar tal conceito requer um tanto mais. No entanto, ao visualizar o conceito, vivencia-se o conceito. Absorve-se o conceito de um modo tal a que ele torne-se indelével. Irremovível.
Reuniríamos um Quarteto de Jazz. Estabeleceríamos uma música a ser executada. Estabeleceríamos a “tradução” de cada passo da execução da música pelo Quarteto: a exposição de um tema conhecido; a explanação sobre a construção do tema; a definição de improviso de cada um dos 4 instrumentistas; o detalhamento do modo como é feito um improviso (sempre a ser construído sobre uma harmonia pré-determinada); a volta do tema para o encerramento da execução.
Em seguida, repetiríamos o processo, porém providos de outra peça musical, agora deixando ao espectador a tarefa de identificar (apenas vez por outra alertado) cada uma das facetas expostas anteriormente.
Finalmente, sem o auxílio do “tradutor”, o ouvinte teria meios suficientes para identificar cada um dos momentos da execução da terceira peça.
Seguir-se-ia a esta, mais algumas peças num pequeno “concerto de Jazz”, que encerraria a apresentação.
Projeto 3 – Da Programação Fixa do Auditório Kotler
A ocupação de um espaço cultural é, de longe, a obrigação maior do artista. Ainda mais quando o artista vem ligado a uma instituição de ensino.
Justamente embasada nessas assertivas, surge imperativamente a proposta de ocupação do Auditório Kotler, às noites de sábado no próximo semestre, o primeiro do ano de 2008.
Primeiramente, aproveitando o influxo gerado pela apresentação do Projeto 2, supra descrito, realizando uma série de apresentações de grupos de música com seus repertórios fincados no Jazz e na música instrumental brasileira.
Naturalmente, será preciso – nesse primeiro instante do Projeto – que os grupos a se apresentarem não sejam remunerados. Tal fato inviabilizaria por completo a intentona.
Contudo, após o primeiro semestre de atividades culturais no Auditório, teríamos já criado um princípio de “culturalização” do espectador. Teríamos “criado a cultura” de ir-se ao Auditório às noites de sábado para se ouvir boa música.
Munido desse hábito, desse público fixo, constante, freqüente, procuraríamos estabelecer parcerias que viabilizassem um vôo mais alto do Projeto: estabelecer um “programa de estudos” para as apresentações. Por exemplo, a cada semestre o Auditório receberia artistas que interpretariam todo o repertório da música brasileira da primeira década do século. No semestre seguinte, o Projeto se debruçaria acerca do repertório dos anos Vintes e, assim, sucessivamente.
Vale ressaltar que, os grupos que participariam do primeiro semestre (não remunerado) seriam, necessariamente, convidados a voltarem ao palco do Auditório na segunda – e próspera – fase do Projeto.
Chegamos, o palco estava arrumado. Um piano à minha esquerda, uma guitarra à esquerda do piano, uma bateria no centro do palco, um baixo à esquerda da bateria. Tudo pronto.
Do lado direito do piano, no canto do palco, uma cadeira. Vazia. Sem nada em cima. Uma cadeira posta ali, jogada. Perguntei a meu pai o que fazia ali uma cadeira. Ficamos os dois na dúvida.
Começa o show.
Elis Regina canta como nunca. Como ninguém. A afinação precisa é embalada pela incrível capacidade de improvisação, pelo “balanço” intraduzível, pela emissão de cada palavra da música pronunciada com a mais pura Verdade possível. Cada palavra que saía da boca daquela cantora de 1,53 metros de altura soava como palavras ditas em voz alta por um gigante.
Elis Regina cantou, pulou, dançou.
A certa altura, dirigiu-se para o lado direito do palco e sentou-se na cadeira ali abandonada. Sentou-se ali e cantou Corcovado, de Tom Jobim.
Após as primeiras notas cantadas ali, daquela cadeira, finalmente eu descobri o porquê da existência das cadeiras na Terra. Elas tinham nascido para aquele momento. O momento em que, sobre elas, Elis Regina cantaria a Vida.
Caro Ilan
Seguem os 3 Projetos sobre os quais falamos. Perdoe a demora. A escolha correta da peça (Projeto 1), a escolha correta do grupo (Projeto 2) e a escolha correta dos grupos (Projeto 3) tardaram um bocado este envio. De todo modo, “antes tarde do que mais tarde”, não é? Aí vão:
Projeto 1 – Da Desconstrução de uma partitura
No intento de mostrar ampla e detalhadamente a importância vital do conceito teórico – e, mais, do aprofundamento no domínio do conceito teórico – no processo de aprendizado; no processo pedagógico; e, sobretudo, no processo de trabalho; venho propor o que chamo de “desconstrução de uma partitura”.
Exposto à execução de uma música, imediatamente o ouvinte se remete a algo etéreo, onírico, provindo de uma inspiração repentina que tem lugar no éter poético por onde os grandes gênios transitam com a facilidade de quem entra e sai por uma porta constantemente aberta. Ledo engano.
A música só leva o ouvinte a tais plagas após um processo metódico e escorreito de construção. Escrevem-se notas sobre uma pauta em branco. Tais notas revelam um intrincado processo composicional que parte da Forma e chega ao ouvido como Conteúdo.
Conhecer tal processo composicional leva o ouvinte a entender o compositor como aquele-que-trabalha, não mais como aquele-que-transita-pelo-Éter.
Munido de tal conceito, o ouvinte poderá situar-se na posição analítica da composição. Poderá compreender alguns passos que o compositor trilhou (e deixou grafados) na construção de sua partitura.
No entanto, para que o ouvinte compreenda o processo de construção de uma partitura, é necessário que um especialista des-construa a partitura à vista do ouvinte. É necessário que o especialista des-monte passo-a-passo a partitura para que o ouvinte perceba como o compositor montou a estrutura que o encanta, enternece, comove.
Para tanto, traremos à tona uma peça fartamente executada, amplamente conhecida: a 5a. Sinfonia, de L. V. Beethoven. Mais precisamente, o Primeiro Movimento da 5a. Sinfonia, de L. V. Beethoven.
Partindo do conceito da Forma, arraigado ao período neo-clássico, antecedente a Beethoven, estabelecido na segunda metade do século XVIII, e levado à categoria de “Estrutura Perfeita” por W. A. Mozart, estabeleceremos um Conceito-Primal do trabalho: compreender cada passo da construção de uma obra musical pela premissa teórica da qual se valeu o seu compositor.
Passaremos a destrinchar cada trecho do primeiro movimento da Sinfonia (após estabelecer o Conceito de Sinfonia) mediante as divisões impostas pela Forma Sonata.
Em seguida, esmiuçaremos cada subdivisão de cada um dos trechos, até chegarmos à mínima célula melódica (as famosas 4 notas do “tchan-tchan-tchan-tchan”), a pedra-fundamental que gerou toda a construção arquitetada pelo genial compositor austríaco.
Compreenderemos, finalmente, o cerne do processo composicional de Beethoven. Perceberemos, a partir da dês-construção, cada passo que o compositor seguiu para realizar a construção de sua obra. Estabeleceremos a vital necessidade de se compreender – e, sobretudo, dominar – o conceito Teórico para atingirmos a eficácia Prática.
Projeto 2 – Do Quarteto de Jazz e o Conceito de Improvisação
Há pouco tempo estabelecia-se incondicionalmente a relação de semelhança da estrutura interna de uma Empresa com a estrutura íntima de uma orquestra: os setores divididos por suas características, suas funções, sua hierarquia, todos regidos por um maestro e obedecendo aos signos de uma partitura.
Desde algum tempo, tal conceito sofreu uma transformação e a relação de semelhança passou a ser estabelecida com um Grupo de Jazz: os indivíduos, setorizados também, hierarquizados também, porém com a capacidade - e a liberdade – de improvisação em determinados momentos.
Traduzir tal conceito em palavras não requer mais do que 2 parágrafos. Contudo, não passa de um conceito traduzido, não-vivenciado.
Visualizar tal conceito requer um tanto mais. No entanto, ao visualizar o conceito, vivencia-se o conceito. Absorve-se o conceito de um modo tal a que ele torne-se indelével. Irremovível.
Reuniríamos um Quarteto de Jazz. Estabeleceríamos uma música a ser executada. Estabeleceríamos a “tradução” de cada passo da execução da música pelo Quarteto: a exposição de um tema conhecido; a explanação sobre a construção do tema; a definição de improviso de cada um dos 4 instrumentistas; o detalhamento do modo como é feito um improviso (sempre a ser construído sobre uma harmonia pré-determinada); a volta do tema para o encerramento da execução.
Em seguida, repetiríamos o processo, porém providos de outra peça musical, agora deixando ao espectador a tarefa de identificar (apenas vez por outra alertado) cada uma das facetas expostas anteriormente.
Finalmente, sem o auxílio do “tradutor”, o ouvinte teria meios suficientes para identificar cada um dos momentos da execução da terceira peça.
Seguir-se-ia a esta, mais algumas peças num pequeno “concerto de Jazz”, que encerraria a apresentação.
Projeto 3 – Da Programação Fixa do Auditório Kotler
A ocupação de um espaço cultural é, de longe, a obrigação maior do artista. Ainda mais quando o artista vem ligado a uma instituição de ensino.
Justamente embasada nessas assertivas, surge imperativamente a proposta de ocupação do Auditório Kotler, às noites de sábado no próximo semestre, o primeiro do ano de 2008.
Primeiramente, aproveitando o influxo gerado pela apresentação do Projeto 2, supra descrito, realizando uma série de apresentações de grupos de música com seus repertórios fincados no Jazz e na música instrumental brasileira.
Naturalmente, será preciso – nesse primeiro instante do Projeto – que os grupos a se apresentarem não sejam remunerados. Tal fato inviabilizaria por completo a intentona.
Contudo, após o primeiro semestre de atividades culturais no Auditório, teríamos já criado um princípio de “culturalização” do espectador. Teríamos “criado a cultura” de ir-se ao Auditório às noites de sábado para se ouvir boa música.
Munido desse hábito, desse público fixo, constante, freqüente, procuraríamos estabelecer parcerias que viabilizassem um vôo mais alto do Projeto: estabelecer um “programa de estudos” para as apresentações. Por exemplo, a cada semestre o Auditório receberia artistas que interpretariam todo o repertório da música brasileira da primeira década do século. No semestre seguinte, o Projeto se debruçaria acerca do repertório dos anos Vintes e, assim, sucessivamente.
Vale ressaltar que, os grupos que participariam do primeiro semestre (não remunerado) seriam, necessariamente, convidados a voltarem ao palco do Auditório na segunda – e próspera – fase do Projeto.
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